quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

The God of Small Things - O Deus das Pequenas Coisas


 Era uma época em que o impensável virava pensável e o impossível realmente acontecia. (pág. 41)


Se soubesse que estava para entrar num túnel cuja única saída era a sua aniquilação, será que teria ido embora?
Talvez.
Talvez não.
Quem pode dizer?
(pág. 331)



ROY, Arundhati. O Deus das pequenas coisas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998



Este foi um livro encantador de ler... Diferente de qualquer outro que eu já li. Cheio de descrições, vento pelo arrozal, cheiro docenjoativo em meio a uma delicada trama passada em Cochin, Kerala. Essa é a terra da família dona da Paraíso, Picles & Polpas no sul da Índia.

Fica a dica de uma leitura encantadora deste grande livro sobre as pequenas coisas...

* * *

Talvez seja verdade que as coisas podem mudar em um dia. Que apenas doze horas podem alterar a trajetória de uma vida inteira. E que, quando isso acontece, essas poucas horas, como os destroços saqueados de uma casa incendiada, o relógio calcinado, a fotografia rasgada de um momento feliz, a mobília enegrecida, podem ser ressuscitados das ruínas e examinados. Preservados. Explicados.
Pequenos acontecimentos, coisas triviais, esmigalhados, reconstituídos. Revestidos de novos significados – de repente elas se tornam descarnados de uma história... Mesmo assim, dizer que tudo começou quando Sophie Mol chegou a Ayemenem é apenas uma das maneiras possíveis de ver as coisas...
Também seria viável afirmar que tudo começou há milhares de anos. Muito antes de virem os marxistas. Antes de os britânicos tomarem Malabar, antes da Ascendência Holandesa, antes da chegada de Vasco da Gama, antes da conquista de Calicut pelos zamorin. Antes de os três bispos sírios vestidos de púrpura serem assassinados pelos portugueses e encontrados boiando no mar, com serpentes marítimas enroladas em seus peitos e ostras enredadas em suas barbas emaranhadas. Pode-se argumentar que tudo começou antes de o cristianismo chegasse num navio e se difundisse em Kerala como o chá de um saquinho de bule.
            Que tudo começou quando as Leis do Amor foram promulgadas. As leis que determinam quem deve ser amado, e como.
            E quanto.                                                                                                                 (pág. 42- 43)

* * *

   Depois, nas treze noites que se seguiram, eles instintivamente se prenderam às Pequenas Coisas. As Grandes Coisas jaziam para sempre do lado de dentro. Sabiam que não tinham para onde ir. Não tinham nada. Nenhum futuro. Então prenderam-se às pequenas coisas.
   Riam das picadas de formigas nos traseiros do outro. De lagartas desajeitadas escorregando das beiradas das folhas, de besouros virados de barriga para cima que não conseguiam se endireitar. De dois peixinhos que sempre perseguiam Velutha no rio e o mordiam. De um louva-a-deus particularmente devoto. De uma aranha minúscula que vivia numa rachadura da parede da varanda dos fundos da Casa da História e que se camuflava cobrindo o corpo com pedacinhos de lixo: um resto de asa de vespa. Parte de uma teia. Poeira. A parte apodrecida de uma folha. O tórax vazio de uma abelha morta. Chappu Thamburan, Velutha a chamou. Lorde Lixo. Uma noite, deram uma contribuição ao guarda-roupa da aranha: um floco de casca de alho. E ficaram profundamente ofendidos quando ela recusou a oferta junto com o resto da armadura de onde emergiu, mal-humorada, nua, cor de ranho. Como se deplorasse o gosto deles para roupas. Durante dias a aranha ficou neste estado suicida de nudez desdenhosa. A concha de lixo descartada continuava de pé, como uma visão de mundo fora de moda. Uma filosofia antiquada. Depois riu. Chappu Thamburan adquiriu um conjunto novo.
(p.336)
   Sem admitir para si mesmos, nem um para o outro, os dois ligaram seus destinos, seus futuros (seu Amor, sua Loucura, sua Esperança, sua Infinita Ventura) ao da aranha. Eles iam vê-la toda noite (com pânico crescente à medida que o tempo passava) para ver se havia sobrevivido ao dia. Preocupavam-se com sua fragilidade. Com sua pequenez. Com a adequação de sua camuflagem. Com seu orgulho aparentemente autodestrutivo. Passaram a amar seu gosto eclético. Sua desajeitada dignidade.
Eles a escolheram porque sabiam que tinham de depositar sua fé na fragilidade. Limitar-se à Pequenez. Cada vez que se despediam, só pediam uma pequena promessa do outro.
“Amanhã?”
“Amanhã.”
Sabiam que as coisas iam mudar um dia. E tinham razão.
(...)
Ela tinha uma rosa seca nos cabelos.
Ela se virou para dizer mais uma vez: Naaley”.
Amanhã.
(pág. 337)
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2 comentários:

Carolina Carvalho De Rose disse...

Que lindo, quero ler esse livro!!! Vou pegar uma frase "emprestada".
Teu blog é delicioso de ler! Obrigada pelo comentário no meu! Bjoss

۞ Potira ۞ disse...

Carolina

Este é mesmo um livro muito lindo... Podes pegar todas as frases que quiseres...

Obrigada!!!

=)

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